sábado, 22 de maio de 2010

Adeus, Palestra


Tenho boa memória, mas não me lembro do meu primeiro jogo no Palestra Itália. Creio que tenha sido lá por 83, 84. Mário Sérgio comandava o Palmeiras. Acho que foi contra a Ferroviária de Araraquara. Fui a pé, com o meu pai. Eram poucos os momentos que eu tinha com meu pai, só a gente, quando eu era pequeno. Ele chegava tarde em casa, quase sempre bravo, como eram todos os pais da minha infância. Mas nos dias de jogos do Palmeiras, meu pai e eu éramos um time.

Do meu último jogo, lembro bem, muito mais do que gostaria. Foi o último jogo do Diego Souza no Palmeiras. Foi o primeiro da eliminação na Copa do Brasil de 2010, contra o Atlético Goianiense. Ao menos vencemos - mas com um gol de pênalti, no último minuto, marcado pelo Cleiton Xavier.

Dizem que hoje, 22 de maio de 2010, no ano em que entro na casa dos 30, será o último jogo do Estádio Palestra Itália. Eu não tenho tanta certeza. Torço, honestamente, para que inventem um último amistoso, uma despedida honrosa. Porque hoje, não irei ao jogo. A chance de derrota frente ao Grêmio é grande demais, e não quero me despedir do nosso estádio com mais uma derrota - desejo que esse parágrafo seja veemente negado pelo jogo que acontecerá daqui a pouco, dado que escrevo esse texto às 15h30, três horas antes da partida.

Também não creio que será o último jogo porque tenho dúvidas sobre a construção da tal Arena Palestra Itália – se é que não haverá o nome de alguma marca no meio do nome do estádio, não que isso seja necessariamente ruim.

O biênio 2009/2010 não foi exatamente o que eu esperava para o Palmeiras. Aliás, creio que nenhum palmeirense esperava tantas decepções em tão pouco tempo. O presidente que era para ser um salvador faz uma administração ruim. A diretoria trabalha mal. Os atletas não parecem querer estar no clube – talvez porque não recebam em dia. E a oposição, nociva, se regozija a cada derrota de uma camisa que eles, como palmeirenses que se dizem, deveriam sempre querer ver vencendora, doa a quem doer.

Lembro do estádio quando ainda havia um espaço entre o setor “Reservado para Sócios” e as numeradas descobertas. Da época em que chegávamos ao estádio bem cedo, para não pegar filas, e só saíamos bem depois do fim do jogo, para evitar o “pêndulo” no meio da multidão, quando não é possível andar, apenas balançar o corpo de um lado para o outro, na tentativa mínima de locomoção, bem naquele trecho em que o jornalista Chico Lang, que nunca deve ter pisado no Palestra, tem até hoje sua sexualidade questionada pela torcida.

No Palestra, chorei pela primeira vez com futebol ao ver o Cuca, esse mesmo técnico de triste figura, outrora um meia raçudo e muito forte, marcar no gol do placar, pular as placas de publicidade e simular uma faixa de campeão. Eu já tinha 12 anos em 1992, e nunca tinha visto meu time ser campeão. Lembro também do dia em que o Leão foi expulso, talvez em 86 – mais um jogo que eu acho que foi contra a Ferroviária – e arrumar um dos maiores quebra-paus que eu já tinha visto. Lembro de um Palmeiras X Rio Branco, com meu tio-avô Mario Iwata, em um dia de tarde, quando uma tempestade impediu o jogo de terminar. Foram horas dentro do Palestra, esperando a inundação da Rua Turiaçú permitir nossa saída. A chuva também caiu pesada na reestréia do Evair, em 92. Batemos a maldita Inter de Limeiras por 1 a 0.

Certa vez, tive que pedir a um torcedor qualquer que fingisse ser meu pai, porque menores passaram a só entrar acompanhados a partir de 1995 no estádio, para ver um Palmeiras X Bragantino, por uma Taça Conmebol qualquer. Meu pai de verdade, inteligentemente, preferiu ver pela TV. Vi também o Romário acabar com a gente em 2000, naquele 3 X 4 de virada, um dos maiores jogos de futebol que já presenciei. E, claro, assisti a quase todos os jogos que fizemos pelas Libertadores de 94 para cá, inclusive o show de Alex no 3 X 0 contra o River Plate, em 1999, bem como o título nos pênaltis, semanas depois, contra o Deportivo Cali. Marcos correu para o lado das arquibancadas em que eu estava depois que o Zapata bateu aquele pênalti para fora. Muitos outros pênaltis defendidos e convertidos, bolas na trave, no ângulo, no cantinho e muito longe das metas, para alegria do José Silvério que mandava um sonoro “Essa foi láááááááá na piscina(m)!”, vez por outra, reaparecem na minha memória.

O último título que vi no Palestra foi o Paulista de 2008. O troféu foi entregue contra a Ponte Preta, mas a conquista veio mesmo naqueles 2 X 0 contra o São Paulo, aquele do gás de pimenta, no dia em que um gol do Valdívia fez com que a torcida, o Rogério Ceni e um transformador explodissem quase ao mesmo tempo após uma das dancinhas mais lindas e ridículas que já vi alguém fazer para comemorar um gol. Que bom, eu também estava lá.

Creio ter assistido a mais de 200 jogos no Estádio Palestra Itália. Alguns no camarote do Renato Mauro "Boi", ao lado da Tribuna de honra da Federação Paulista de Futebol, e muitos nas arquibancadas, com o Fábio "22" Donatelli, o Fábio Fujita, o Fernão Ketelhuth, o Vicente Laganaro, o Nélson Sambrano, o Régis Cavinato, o Rafael Faro, o César “Paulo Nunes”, o Diógenes Menon, meu tio Luiz Costa, os amigos do meu pai, especialmente o Siro Casanova e o Roberto Faria, e tantos outros amigos que, injustamente, não irei citar. Até minha esposa Tatiana Malatesta eu fiz sentar naquele chão de cimento áspero, em um Palmeiras X Anapolina, pela Série B de 2003. Mas, certamente, a maior parte dos meus jogos no Palestra eu vi mesmo com o meu pai Wagner Cano Lima, que foi quem me ensinou a amar o Palmeiras, para qual até hoje, e cada vez mais, ele finge não dar a mínima. Pai, você não me engana. E, mais uma vez, muito obrigado.

Se de fato o Estádio Palestra Itália, o velho Parque Antarctica, for mesmo sair de cena para dar lugar a uma moderna arena, e se isso é o melhor para o Palmeiras, que assim seja. Mas que os dirigentes do clube, os da oposição também, saibam que junto com o entulho que vão jogar nas caçambas segue parte importante das vidas de milhões de palestrinos que também cresceram ali sentados, que tomaram chuva e frio, mataram as baratas que saiam da tubulação da arquibancada lateral, que torceram sem esperar nada em troca e que talvez tenham tido a sorte de, como eu, terem sido sócios do clube.

Vá com Deus, vecchio Palestra. E que você encontre dias melhores quando reabrir ainda maior e mais imponente. Eu pretendo estar por aqui para te receber.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Filme: "Shirin" - Abbas e o cinema do não-cinema


Relatos que já se tornaram lendários dão conta de que parte da platéia fugiu da primeira sessão de cinema da História. O desespero tomou conta dos espectadores quando a imagem de um trem "veio em direção ao público". Pelas mãos dos irmãos Lumiére, foi nesse dia, em que se viu pela primeira vez a ação retratada em uma tela, que nasceu o cinema.

Com base nesses relatos, alguns podem julgar complicado classificar como cinema a proposta de Abbas Kiarostami em Shirin (2009). Por outro lado, é também bastante difícil desprezar um filme, que mesmo sem mostrar nada mais do que rostos reagindo a uma história, consegue prender a atenção de uma platéia por cerca de 90 minutos, e atrair tantos outros espectadores que, mesmo curiosos, acabam desistindo pelo caminho.

Shirin é isso: uma platéia repleta de mulheres, captadas individualmente, em close, com alguns poucos homens, focalizados apenas em relances, assistindo a um suposto filme épico baseado na lenda da história de amor da princesa armênia Shirin e do príncipe persa Khosrow. As mulheres, todas atrizes iranianas, exceto por Juliette Binoche, reagem à história, emocionando-se com as partes mais tristes, assustando-se com as mais violentas. Vale um destaque para a beleza de algumas das atrizes, em sua maior parte, maquiadas com esmero. E é só isso que a platéia vê.

Kiarostami revelou posteriormente que as atrizes, na verdade, não estavam assistindo a nada. Assim como as platéias de Shirin, as atrizes apenas ouvem a narração dramática do romance inconcluso da pobre princesa rica, enquanto efeitos especiais refletidos em seus rostos emulam os reflexos que cenas de verdade provocariam.

E o pior é que a história, escrita no século XII, é interessante. Então, ficamos ali, platéia, assistindo a uma platéia que está ouvindo uma telenovela em uma sala semi-escura. E tentando entender, pelas legendas apressadas, para dar conta de um rebuscado texto clássico em farsi, porque raios a princesa está no leito de morte do grande amor de sua vida - informação que é revelada logo no início do filme.

Um dos mais celebrados diretores iranianos, Abbas Kiarostami, já há um tempo, vem tentando explorar e descobrir os limites do que chamamos de cinema. Primeiro, com Ten (2002), ambientado totalmente em um carro, em Teerã. Depois, veio Five (2003), que só mostra planos de paisagens, filmadas por tempos determinados e aleatórios, sem qualquer interferência.

Estaria Kiarostami fazendo de seu filme alguma metáfora política? Estaria ele criticando algo? Seria Shirin um manifesto pela afirmação da importância da qualidade dos argumentos e roteiros, uma defesa do cinema como “contador de histórias”? Seria uma crítica ao cinema de efeitos especiais que toma de assalto as telas de todo o planeta?

O que o iraniano está a procurar com esse exercício audiovisual, como bem definiu o jornalista Fábio Fujita (@fabiofujita) é difícil descobrir. Mas é certamente algo que não pode passar batido. Se por nada mais, ao menos pela cara de pau e o inusitado da proposta.


Filme: "O último dançarino de Mao" - Só a dança salva (o filme)


Em mais de uma cena, os personagens norte-americanos de O último dançarino de Mao (2009) criticam a falta de emoção das performances dos bailarinos chineses. Em sua avaliações faltaria aos orientais saber dar emoção à execução dos movimentos. Ironicamente, bastariam algumas pequenas adaptações, e esses diálogos poderiam ser totalmente aplicados às partes "não-dançadas" do filme do australiano Bruce Beresford (Conduzindo Miss Daisy) sobre a história real do bailarino Li Cunxin.

O filme é baseado no livro de memórias do próprio Li, um filho de camponeses recrutado ainda muito criança pelo regime do "Chairman" Mao para o ballet nacional. Com uma rotina massacrante de treinamentos, o menino cresce dentro da academia. De início, Cunxin sofre muito para se adaptar. Sabemos, no entanto, que em um dado momento a maré virou, pois o filme inicia-se com sua chegada a Houston, Texas, em um programa de intercâmbio com o ballet local. Flashbacks, em uma montagem meio quadrada, se encarregam de explicar como.

O curioso é que mesmo baseado em uma história real, com direito a superação, romance, traição, política, famílias separadas e intrigas internacionais, o filme é insosso. A história de Li, clichês de perseverança orientais à parte, é muito bonita e cheia de reviravoltas. Mas os personagens parecem estar no automático, sem motivação. Parte dessa questão pode ser explicada pelo fato de Beresford ter recrutado bailarinos clássicos de verdade para papéis muito importantes do filme - Li entre eles, vivido por Chi Cao. O ganho nas lindas seqüências de dança é nítido. Mas basta a música parar para que a monotonia volte a reinar na tela.

Com uma participação pequena, o sempre competente e esquisitão Kyle Machlachlan (do eterno Twin Peaks), juntamente com Bruce Greenwood, bastante crível e no tom certo como o coordenador do Ballet de Houston, acaba dando uma esquentada na trama . Mas não o suficiente para que se tenha a clara sensação de que uma bela história real foi sub-utilizada. O último dançarino de Mao é apenas correto, e só se salva porque os raros momentos de emoção do filme, durante as seqüências de peças clássicas de ballet, são realmente de cair o queixo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Filme: "Soul Kitchen" - A Fábula do grego que levou dois leões de Veneza


Há um agradável tom de fábula em Soul Kitchen. Duplamente premiado no Festival de Veneza (Especial do Júri e Young Cinema Awards), o filme do alemão/turco Faith Akin, mais conhecido por seus trabalhos dramáticos é uma muita bem dirigida comédia de erros. Soul Kitchen, leve, mostra a versatilidade do jovem diretor, que já saiu com estatuetas de Cannes e Berlim, entre outros. Excetuando sutis ressalvas, o roteiro é criativo e amarrado. O ritmo é acertado e a direção de arte, precisa. Sem falar do elenco. Na pele do alemão/grego Zino Kazantsakis, Adam Bousdokos vai da ironia sutil à comédia física sem fazer força. E, em meio a tantos bons elementos de um filme tão redondo, rouba a cena.

Zino é proprietário do restaurante com ambiente moderninho/alternativo que dá nome ao filme. Em um galpão no que parece ser um bairro industrial de Hamburgo em processo de migração para o residencial - algo como o Meatpackers District, de Nova York - o grego conseguiu juntar uma clientela cativa, a despeito de seu pouco inspirado cardápio calcado em creme de leite e congelados. Zino namora Nadine (Pheline Roggen), rica e com a aparência de uma top model, que está de mudança para Shangai - sem o namorado.

Responsável pela cozinha do Soul Kitchen, Zino lesiona as costas seriamente. Sem ter quem o substitua, acaba se encontrando ao acaso com o chef de alta gastronomia Shayn. Sem emprego, perspectiva e relativamente surtado, o chef aceita o emprego, mas não o cardápio do restaurante. Nesse meio-tempo, Ilias (Morits Bleibtreu), irmão de Zino, recebe o benefício do regime semi-aberto na cadeia em que está preso, e precisa de um trabalho. Nada mais conveniente do que pedir ajuda ao irmão, que quase já não tem problemas em dose suficiente.

Seguindo Zino pela verdadeira corrida de obstáculos que se tornou sua vida, Soul Kitchen passeia por Hamburgo e pela vida de uma geração jovem semi-madura e alternativa, mostrando a cara de uma Alemanha menos sóbria.

Com as reviravoltas características das comédias de erros, o filme de Akin é muito bom e divertido, a despeito de algumas soluções fáceis demais, redentoras na trajetória do personagem e, portanto, perdoáveis - acredite: você vai querer 'torcer' pelo protagonista. Soul Kitchen é simples, divertido e curto (99 minutos), como as fábulas devem ser.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Filme: "Ninguém sabe dos gatos persas" - Teerã Blues e a arte do filme triste


Poucos realizadores são tão hábeis quanto Bahman Ghobadi na arte de fazer filmes tristes. Embora sua obra também traga momentos engraçados, que por vezes até beiram um desnecessário pastelão, o iraniano se mantém firme como inegável entusiasta da extração de lágrimas de suas platéias - e o faz sem muita sutileza. Sair incomodado de um de seus filmes, como os belíssimos Tempo de embebedar cavalos (2000), Exílio no Iraque (2002), Tartarugas podem Voar (2004), ou até do menor Meia-Lua (2006), é o procedimento padrão.

Mas essa não é sua única especialidade. Ghobadi tem manifesta preferência por trabalhar com elencos sem experiência, o que sempre confere aos seus filmes um característico tom naturalista - comum a outros bons cineastas de seu país. O iraniano, que também se destaca por emoldurar seu trabalho com a crítica sócio-política e procurar sempre inserir a música em seus roteiros, é figurinha fácil na Mostra de São Paulo. Quatro vezes premiado em Cannes, o diretor vem ao Brasil nesse ano com Ninguém sabe dos gatos persas (2009), um legítimo Bahman Ghobadi.

Diferentemente da maior parte dos filmes do iraniano, Ninguém sabe tem ambientação urbana, e conta a história de um jovem casal apaixonado pela música indie internacional, sufocado pelo regime e ansioso por deixar o Irã rumo a uma carreira artística na Europa

O Irã é a república do não. Não se pode fazer música, cantar em inglês, deixar o País ou ter uma só mulher na banda sem a permissão do Ministério Islâmico, que regula a moral e os bons costumes com uma pesada mão conservadora. Mas, ao contrário do que gostam de acreditar os poderosos da terra de Ahmadinejad, a máquina estatal não é perfeita. E a especialidade do agitador cultural Nader, que mesmo participando dos momentos mais dramáticos da trama, é o seu alívio cômico, é burlar o sistema: seja baixando filmes, promovendo shows ou ajudando o jovem casal de protoganistas, Negar e Ashkan, a obter músicos acompanhantes, vistos e passaportes para fugir rumo à Europa.

O filme acompanha a saga dos jovens e, ao longo do caminho, faz desfilar pela tela diversos tipos de manifestações culturais de uma impensável e eclética Teerã underground, que graças ao seu amplo leque de proibições, tem desde grupos tradicionais típicos e semi-folclóricos a bandas de Heavy Metal e rappers cantando em farsi.

Seguindo a forma que o consagrou, de mesclar momentos leves e densos à medida que a trama se desenrola, Ghobadi faz de Ninguém sabe um musical dramático não-assumido, uma espécie de "Teerã Blues", em alusão ao filme de 2006, ambientado na capital de Cuba. Cada um dos grupos visitados pelos protagonistas aparece em performance - alguns até tocam sobre videoclipes um tanto primários para os padrões ocidentais.

E como todo filme de Bahman Ghobadi, Ninguém sabe tarda, mas não falha. À medida que o filme se aproxima de seu desfecho, o tom mais leve vai dando lugar a uma sensação de sufocamento e angústia, eficientes, na medida do possível, na tarefa de preparar o espectador para o inesperado, abrupto e melodramático clímax. E ele vem, acreditem.

Ninguém sabe mostra um Ghobadi em forma, sem fugir de suas características, mas ousando experimentações. Além da evidente oportunidade de se poder enxergar o Irã além das vilas e montanhas empoeiradas, recorrentes na filmografia do país, o filme é envolvente e o roteiro, cumpridor na tarefa de criar empatia pelos personagens. Vale também um destaque para as composições interpretadas pelas bandas fictícias da trama, em especial para o duo dos protagonistas Negar e Ashkan, com uma sonoridade muito semelhante à dos os escoceses do Belle & Sebastian.

Filme: "Mau dia para pescar"- Excelentes atuações são trunfo de divertido uruguaio


Apoiado em 3 atuações primorosas, Álvaro Brechner estréia promissoramente na direção com Mau dia para pescar (2009). Antonella Costa (Diários de Motocicleta, 2005), o finlandês Jouko Ahala, bicampeão do concurso "World's Strongest Man", que trabalhou com Ridley Scott em Cruzada (2005), e, principalmente, o escocês Gary Piquer, também co-roteirista do longa, garantem um caminho seguro para o diretor uruguaio. Se é verdade que ousa pouco na forma de seu filme, Brechner, além de sua talentosa trinca de atores, compensa esse relativo conservadorismo com um tom agridoce correto, um ritmo tão preciso quanto agradável e uma fotografia requintada.

Na década de 60, o alegado 'Príncipe Orsini da República de Siena', (Piquer, seboso) é uma espécie de empresário do ex-campeão Mundial de Luta livre Jacob van Oppen (Ahala), alemão oriental 'resgatado das garras do comunismo'. Enquanto aguardam autorização da Federação Mundial para voltar aos ringues profissionais da Europa, Orsini e o já veterano van Oppen, asmático e revezando-se entre o tédio extremo e momentos de agitação e agressividade, partem em uma turnê por pequenas cidades da América Latina.

O plano é sempre o mesmo: Orsini chega à cidade e, por meio do jornal local e cartazes, desafia qualquer um a se manter por três minutos no ringue com o alemão. Quem conseguir sobreviver, leva mil dólares, uma fortuna na época. Ciente das limitações de van Oppen, Orsini sempre assegura que o desafiante não será páreo para o seu cambaleante, porém ainda gigantesco, campeão. Nem se, para tanto, precisar 'combinar' a luta, à revelia de van Oppen. A interpretação do finlandês é destacável. Embora seja a peça fundamental do esquema de Orsini, o lutador é servilmente obediente ao empresário, está sempre mal-humorado e aparentemente alheio à realidade.

Em Santa Maria, no Uruguai, entretanto, um imprevisto acaba colocando van Oppen diante de um adversário fora do script. Percebendo que Orsini, com toda sua empáfia elegante de quatrocentão falido, é na verdade um picareta, a bela Adriana (Antonella), seduzida pelos mil dólares do prêmio, decide fazer com que seu namorado, conhecido pela singela alcunha de "El Turco Matador", aceite o desafio. Usando o mesmo expediente de Orsini, Adriana faz trabalho de RP e vai ao jornal local anunciar o aceite, colocando o Príncipe em situação delicada. Sem poder controlar o ímpeto de Adriana, mas também impossibilitado de recuar, Orsini, tentando não perder a pose, se percebe cercado - sensação que o diretor consegue transmitir com habilidade.

Sem grandes pretensões reflexivas, mas com excelente e sutil humor, Mau dia para pescar acaba também falando sério sobre questões como o preço da dignidade, o orgulho e a necessidade vital de se escolher as brigas certas - literal e metaforicamente. Fala também sobre auto-confiança e sobre quão potencialmente devastadora pode ser uma relção em que uma pessoa tenta decidir a vida alheia de acordo com a sua perspectiva, sem respeito às subjetividades.

Exibido em Cannes e selecionado entre os dez finalistas da Mostra Internacional de São Paulo (2009), Mau Dia para pescar é forte candidato ao Troféu Bandeira Paulista, com um certo ar retrô, simplicidade e delicadamente latino.

domingo, 1 de novembro de 2009

Filme: "Maradona" - A paixão de dios


Em dado momento do muito bom Maradona (2008), o ex-jogador olha para Emir Kusturica e afirma: eu sou um ator. Diego não se refere às filmagens de que participa sob a direção do bósnio. Tampouco faz essa declaração com gravidade, como se chegasse ali a uma descoberta, ou revelasse um grande segredo. Fala com a naturalidade de quem conhece bem o seu papel, de quem há muito tempo trabalha para dar conta de ser, na sua totalidade, tudo o que Diego Armando Maradona representa.

Aos 10 anos, Maradona já sabia que ia ser Campeão Mundial de Futebol. Olhos de menino, feições muito mais suaves que aquelas que veio a ter quando adulto, mas com o mesmo cabelo desgrenhado, Maradona revela seu destino para a câmera de um programa de TV que o vai procurar em Vila Fiorito, periferia de Buenos Aires. Resignado, sem soberba ou leviandade. E como se soubesse que aquela imagem um dia poderia ser usada em algum filme sobre sua vida, Diego, reveza declarações com embaixadas com a cabeça, com as costas, coxas, calcanhares, ombros e os dois pés.

Em 22 de junho de 1986, sob um sol intenso na Cidade do México, aos seis do segundo tempo, Maradona salta em uma disputa com o goleiro inglês. Mas, como não alcança a bola com a cabeça, o argentino levanta o braço esquerdo, semi-flexionado e, com a mão, empurra a bola para o gol. O juiz valida a jogada: Argentina 1 a 0. Três minutos depois, Maradona recebe novamente, ainda no seu campo defensivo. Tocando a bola sempre com la zurda, Diego arranca em alta velocidade. No caminho, dribla cinco, inclusive o goleiro, e toca para o gol vazio, decretando Argentina 2, Inglaterra 0, e, na sua lógica, como declara a Kusturica, vingando as mortes alvi-celestes da Guerra das Malvinas.

O fato de seus dois gols mais famosos, La mano de Dios (representando a malandragem e a amoralidade) e El gol del siglo (o cúmulo da habilidade futebolística), terem acontecido no mesmo dia é apenas mais uma amostra de que Maradona não está no planeta a passeio. A partida de 22 de junho de 1986, pelas quartas de final da Copa do Mundo, não seria uma síntese melhor acabada da tragédia Maradoniana se tivesse sido escrita por William Shakespeare ou Jorge Luís Borges.

Ao longo de pouco menos de duas horas, Kusturica conta esses e outros capítulos da história de Diego Maradona, sem a pretensão de esgotar o assunto, ou de realizar um testamento sobre quem foi o craque. Até porque, Maradona ainda é. Diferentemente do Pelé e do Édson, Diego é sempre a mesma persona, seja cheirando cocaína, apoiando Hugo Chávez, sendo perseguido, à lá Beatles, em Nápoles, ou reclamando do volume da televisão na casa dos pais, em uma tarde de domingo, durante um jogo qualquer.

Com uma direção segura e uma montagem bastante acertada, Kusturica vai construindo seu Maradona peça por peça, intercalando entrevistas próprias e imagens de arquivo. Os gols, exceto pelo gol do século, que vai revelando em pedaços ao longo do filme, acompanhado de uma dispensável animação, não são contextualizados ou catalogados. Lances de Diego por todas as equipes que defendeu são mostrados aleatoriamente, entrecortados por cenas domésticas, fãs nas porta de hospitais, encontros com Fidel Castro e ritos da igreja Maradoniana - sim, existe. Levemente narcisista, mas com contexto, Kusturica também adiciona ao documentários cenas de seus outros filmes, quando compara as atitudes de seus personagens com as de Diego na vida real.

Contraditório, politicamente incorreto, milonguero e exagerado como só os argentinos conseguem ser, Maradona, como os grandes heróis da ficção, tem uma música-tema, composta pelo cordobês cantor de cúmbia Rodrigo, morto em um misterioso acidente automobilístico no ano 2000. E Diego a canta no filme, em um palco acanhado, esquecendo a letra, suando e passando para a primeira pessoa os versos da canção composta para ser cantada por outrem. Entre eles, aqueles que dizem que 'fue deseo de Dios crecer e sobrevivir'.

Para seus fãs, especialmente os argentinos, Diego erra e acerta por determinismo, por ser o escolhido, por 'cargar una cruz en los ombros'. E essa posição, que Maradona não tem nenhuma vergonha em assumir, à luz de todos acontecimentos da vida do craque, está se tornando cada vez mais difícil de se contestar. Porque para cada tropeço, Maradona encontra uma nova maneira brilhante de, na mesma medida, se reerguer e 'ganar a cada paso, la vida', tornado-se cada vez mais deus aos olhos de quem o idolatra. Um deus à moda grega, ou romana, cheio de vícios e vontades, longe da perfeição, e por isso mesmo, tão sedutor, como atesta o apaixonado Kusturica.

Tietando o craque de maneira explícita e até ingênua, mas sem deixar de comentar suas quedas, Kusturica, que aparece tocando guitarra em mais de uma cena, dirige um filme descontraído, de um fã que se diverte com seu ídolo. Como, por exemplo, quando leva Diego para Belgrado, com o pretexto de relembrar o gol que ele fez pelo Barcelona contra o Estrela Vermelha, na Recopa Européia de 1982. Ali, fica claro que o que o diretor está fazendo, na verdade, é nada mais do que realizar o sonho de todo menino: passar uma tarde brincando com seu herói. Tanto melhor se essa brincadeira puder se tornar um filme. Tanto melhor se esse filme for tão bom quanto Maradona.